

Mateus:
Troca de bebês? Vocês estão certos disso.
Manoel:
Sim, rapaz, estamos convictos disso.
Mateus:
Vocês podem me explicar melhor o que aconteceu? Quando? De quem vocês estão
falando?
Iná:
A 24 anos atrás eu dei entrada neste hospital e fui auxiliado pela vó da minha
filha, mãe do Manoel. Minha filha assim que nasceu foi dada como morta e como
portadora de síndrome de down, entretanto, nos chegou ao conhecimento, através
de uma antiga enfermeira deste hospital, que a bebê não morreu. Segundo ela, a
criança foi trocada por outra que, de fato morreu logo após o parto.
Mateus:
Tudo bem, mas onde está esta enfermeira?
Manoel:
Ela morreu há alguns dias.
Mateus:
E como vocês conseguem me comprovar esta história?
Manoel:
A gente não quer comprovar história. Nós queremos saber das crianças que
nasceram aqui no mesmo dia e correr atrás desta história.
Mateus:
Desculpa, mas preciso levar esta história para o conselho. Eu preciso de um
tempo. Isso é muito grave. Com a ajuda de uma enfermeira ainda?
Iná:
Sim, muito grave e nós temos certeza de que vocês podem ao menos nos apontar
onde está esta menina agora.
Mateus:
Claro, com toda a certeza vamos ajudar. Apenas tenho que decidir em conselho o
que fazer. Entendem que não posso fazer nada sozinho? A dona deste hospital
também está viajando. Quando ela voltar tudo será decidido.
Manoel:
Então estamos combinados. Mas, espero uma resposta em menos de duas semanas.
Caso isso não ocorra eu vou tomar outras providências. Este é o meu cartão, sou
advogado e posso ajudar em algo que for necessário.
Mateus:
Pode deixar. Vou fazer de tudo para acelerarmos estas decisões.
Manoel e Iná se retiram da
sala de Mateus e vão embora. Mateus dá um soco na mesa.
Mateus:
Inferno! Não bastasse a Lívia estar atrás, agora os pais da desgraçada estão
atrás dela também!
Tiago está com Tatiana na sala
mostrando camisas para a irmã.
Tiago: Qual das três é a melhor?
Tatiana: Você quer saber qual das três
é a menos pior, não é?
Tiago: Que seja!
Tatiana: Por que você não compra uma
camisa nova pra ir no jantar de aniversário da Ellen? Não é todo dia que você
vai numa casa chique. E depois você usa ela para outros eventos.
Tiago: Estou sem grana sobrando este
mês.
Tatiana: Pede pra mãe.
Tiago: Nossa mãe não é banco e já temos
mais de 20 anos, Tatiana!
Tatiana: Pede alguma camisa emprestada
com o Mateus. Ele deve ter alguma boa que não usa muito.
Tiago: Menos ainda que eu vou pedir pra
ele.
Tatiana: Deixa de ser cabeça dura, meu
irmão! Olha, que quiser eu peço.
Tiago: Então deixa, eu mesmo escolho a
camisa.
Tatiana: Tá bom, nervosinho, esta daqui
“ó”. É a melhorzinha. E coloca aquela calça que tu usou no casamento do Mateus
que vai combinar.
Tiago: Só espero que este jantar seja
tranquilo. Não quero passar vergonha na frente de estranhos.
Bárbara que estava chegando
ao hospital quase dá de cara com Manoel e Iná, mas consegue se esconder atrás
de um carro e espera eles passarem.
Bárbara:
Será que eles já descobriram tudo? Não pode ser! (resmunga)
Continuando, ela vai até a
recepção querendo informações sobre Lívia.
Bárbara:
Boa tarde. Gostaria de saber se a dona deste hospital está presente.
Ângela:
A doutora Lívia está viajando. Gostaria de deixar algum recado?
Bárbara:
Não, seria somente com ela mesmo.
Neste momento Mateus passa
ao lado de Bárbara com a voz aflita falando ao telefone.
Mateus:
... Não me lembro direito, mãe, tem que ver aqui no cartão que me deixaram. Só
pode ser eles. Que inferno! Se a Lívia estivesse aqui com certeza já teriam
feito a ceninha melodramática de reencontro...
Bárbara ouve a conversa de
Mateus ao telefone e resolve saber quem é aquele rapaz que falava ao celular.
Bárbara:
Por gentileza, você saberia me dizer quem é aquele moço que passou aqui falando
no celular?
Ângela:
Aquele é o Mateus, diretor do hospital e marido da doutora Lívia.
Bárbara:
Nossa, ele parece estar estressado. Deve ser complicado trabalhar aqui.
Ângela:
Ele sempre é meio estourado, mas acho que ele ficou assim depois da visita de
um casal agora há pouco.
Bárbara:
Nossa, menina. Sério? Será que vieram reclamar de alguma coisa?
Ângela:
Pelo jeito sim, mas não me disseram o assunto. Bom, eu preciso entregar estes
papeis no quarto andar. Com licença.
Bárbara:
Claro, toda. E eu preciso ir embora. Obrigada pela atenção.
Ângela:
Imagina.
Bárbara segue Mateus até o
lado de fora do hospital e observa-o falando pelo celular em um canto não
movimentado do jardim.
Mateus:
... o que eu vou fazer, agora? Bom. Decidi que primeiro vou ver quem são estes
pais dela e depois eu decido o que faço. Mesmo que sejam ricos, eu não quero
gente pra estorvar a minha relação com a Lívia, eu tenho um objetivo e não vou
deixar que ninguém atrapalhe.
Vera:
Filho, isso é um sinal pra você desistir dessa tosquice de se apossar de tudo
que era da família Veloso. Chega de remoer mágoa! Ainda dá tempo!
Mateus:
Se depender de mim ela nunca vai encontrar estes pais! Bom, vou desligar, mãe,
pois tenho que resolver muita coisa ainda hoje. Te amo, beijos.
Vera:
Mateus? Mateus! Desligou! Além de tudo ficou mal educado depois de crescido. Eu
mereço mesmo.
Mateus desliga o celular e
quando está caminhando para retornar à sua sala é surpreendido por Bárbara que
entendeu o teor da reação de Mateus em relação a conversa tida com Manoel e Iná.
Bárbara:
Desculpa incomodar, posso falar com você?
Mateus:
Que susto, minha senhora. Eu estou com pressa, fale com a minha atendente e ela
vai marcar uma hora para conversarmos.
Bárbara:
É rápido e do seu interesse.
Mateus:
Agora não dá, minha senhora. Se for reclamação de algum atendimento ruim no
hospital, nós temos um setor pra isso. Agora preciso ir.
Bárbara:
É sobre este casal que acabou de falar com você. Eu sei de todo o assunto e
acho que podemos nos entender.
Mateus fica paralisado com
o que Bárbara fala a ponto de deixar o celular cair no chão.
Mateus
convida Bárbara para subir até a sua sala, para conversarem com mais
privacidade. Sem pestanejar, a megera pega o elevador com Mateus e adentra a
sua sala:
Mateus: Seja direta, minha
senhora. O que a senhora sabe do assunto que tratei com aquele casal que saiu
daqui?
Bárbara: Casal? Eles se
apresentaram desse jeito?
Mateus: Não, mas pra mim é
como se fossem. Tiveram uma filha que segundo eles foi trocada na nossa
maternidade. Não sei até que ponto isso é verdade.
Bárbara: Você sabe que é
verdade, rapaz.
Mateus: Como pode ter tanta
certeza?
Bárbara: Eu ouvi o tom da
sua conversa ao telefone. Parece que você já esperava por isso. Você é marido
da moça que foi trocada, não?
Mateus: Ora! Ora! Temos uma
Sherlock Holmes aqui. Como você sabe de tudo isso?
Bárbara: Meu querido,
quando tudo isso aconteceu e você ainda era uma criancinha ranhenta, eu já era
esperta. Foi a minha falecida sogra, avó da sua esposa, que fez tudo isso e eu
sabia de tudo, apenas não sabia quem havia adotado a menina.
Mateus: Então indiretamente
você é cumplice de tudo isso?
Bárbara: Diremos que eu não
menti, apenas omiti.
Mateus: E qual o seu
interesse?
Bárbara: Afastar a
bastardinha. E foi melhor pra ela, hoje ela é herdeira de uma fortuna e está
bem melhor do que se ela fosse criada pela mãe dela, uma empregada sem estudos.
Mateus: A mãe da Lívia é
uma empregada doméstica? (Diz Mateus rindo)
Bárbara: Sim, daquelas que
falam “Cancumprido”, “Estrupo” e por aí vai (Diz Bárbara rindo junto com
Mateus)
Mateus: Como a vida é
engraçada, essa menina criada que nem uma princesa é filha de uma matuta? Não
dá pra crer. A vida é injusta mesmo.
Bárbara: Por que injusta?
Mateus: Por nada, não.
Bárbara: Por que você não
quer que a sua esposa fique sabendo dos verdadeiros pais dela? Qual seu plano
por trás.
Mateus: Ué, porque eu não
quero que ela sofra. Apenas isso.
Bárbara
dá mais uma de suas gargalhadas estridentes, enquanto é advertida por Mateus.
Mateus: Pare com isso, vai
chamar atenção.
Bárbara: Você acha que eu
sou trouxa, menino? Olha pra minha cara. Eu conheço gente da sua laia. Você não
quer ninguém pra atrapalhar seu golpezinho do baú barato!
Mateus: Olha como você fala
comigo, minha senhora.
Bárbara
ignora e continua zombando da cara de Mateus.
Bárbara: Olha, eu também
dei um golpe no pai desta menina, mas eu não era pé rapado que nem você era,
então foi mais fácil de disfarçar. Sim, porque dá pra ver pela sua cara e seu
jeito de falar que tua criação foi em Colombo e não no Champagnat.
Neste
momento Mateus fica irritado e pega Bárbara pelo ombro e a joga na parede com
força.
Mateus: Para de bancar a engraçadinha, sua patrícia de meia idade!
A megera ao invés de se intimidar tem uma súbita atração pelo rapaz.
Bárbara: Nossa, que força,
rapaz. Com certeza não é um desses playboyzinhos com quem eu já namorei. Gostei.
Isso sim é homem de verdade.
Mateus: Quem é você? O que
você quer de mim?
Bárbara: Meu nome é Bárbara
e eu tenho interesse em manter essa bastardinha da sua esposa longe do meu
marido, assim como você tem o mesmo interesse, para manter seu controle em cima
da herdeira. Temos motivos diferentes, mas o objetivo é o mesmo.
Mateus: E o que você acha
que vai conseguir vindo aqui zombar da minha cara?
Bárbara: Calma, rapaz. Seja
mais sangue frio. Estou brincando com você e propondo uma parceria. Garanto que
você não vai se arrepender.
Mateus: E quem me garante
que você não está blefando e tramando junto com aqueles dois?
Bárbara: Bom, pelo visto
você não é tão esperto quanto eu imaginava. Enfim, eu vou embora, pois por hoje
eu vi que você não vai decidir nada. Se você decidir unir forças comigo, aqui
está meu telefone. Já tenho um plano na cabeça. Só, por favor, não demore, pois
eu detesto essa mania de pobre brasileiro de ficar fazendo os outros esperar.
Já nasci de sete meses por que não tenho paciência pra esperas. Tchau, garotão.
Bárbara
se despede dando um beijo no rosto de Mateus, deixando-o irado e intrigado ao
mesmo tempo.
Mateus
senta em sua cadeira, olha para o retrato de seu pai que está na mesa e pensa
consigo mesmo.
E agora, pai? O que eu
faço?
Enquanto
isso na universidade almoçavam juntos Tiago, Priscila e Ellen.
Priscila,
como é muito boca aberta, não conseguiu segurar a história da irmã
desaparecida.
Priscila: É isso mesmo que vocês
ouviram: eu tenho uma irmã perdida por aí. Minha mãe já tinha me contado esta
história, mas só agora ficou sabendo da troca e tudo mais.
Tiago: E o pai dessa menina
é rico?
Priscila: Não é rico, mas é
muito bem de vida, tem posses, enfim.
Ellen: E já sabem onde está
esta menina?
Priscila: Ainda não, mas
estão procurando.
Tiago: Bom, meninas, vou
indo porque a minha aula de Topografia vai começar. Vocês se comportem. Beijos.
Ellen: Ti, antes de você
ir, quero saber se posso contar com você para o meu jantar de aniversário.
Tiago: Não sei. Seus pais
não vão implicar?
Ellen: Claro que não.
Tiago: Quando vai ser?
Ellen: Neste sábado às 19h.
Tiago: Tá, eu vou. Agora
vou correr porque este professor faz a chamada assim que entra e dá falta mesmo
se você chegar um minuto antes. Beijos, gurias.
Tiago
vai para a aula e Ellen e Priscila ficam conversando.
Priscila: Seu pai eu não
sei, mas a sua mãe é capaz de implicar com o Tiago.
Ellen: Estou torcendo pra
que não. Mas, você sabe como é a dona Bárbara. Eu amo a minha mãe, mas eu
admito que muitas vezes ela ultrapassa os limites. Mas, já que você tocou neste
assunto, eu quero te avisar uma coisa.
Priscila: “Vish”, quando
você fala deste jeito eu até imagino o que pode ser.
Ellen: Eu pretendo assumir
o nosso namoro para os meus pais no meu aniversário. O que você acha?
Priscila: Você está
preparada pra isso? Não quero te pressionar.
Ellen: Eu quero! Eu preciso
disso logo! Já vou fazer 23 anos e não posso ficar nesta angústia.
Priscila: Tudo bem. Eu
também me sinto meio que obrigada a dar logo este passo na minha vida e de maneira mais clara te apresentar como minha namorada pra minha mãe.
Ellen: Ai, amor é isso aí!
Precisamos nos libertar!
Ellen
e Priscila se abraçam e se despedem rumo às suas respectivas salas de aula.
Enquanto
isso, Mateus toma uma decisão e liga para Bárbara:
Mateus: Alô, Bárbara? É o Mateus.
Vamos conversar.
Bárbara: Agora sim você
está provando que é esperto. Sábado às 14h me encontre no estacionamento do
Shopping Pátio Batel. Estarei num Renault Duster Prata.
Mateus: Combinados.
Bárbara
desliga o telefone e imediatamente liga para outro contato.
Bárbara: Alô, Vânia? Não
faça nada neste sábado à tarde. Temos muito que conversar.
0 Comentários