DESTINO - Capítulo 13: Fogo encontra gasolina






Mateus: Troca de bebês? Vocês estão certos disso.
Manoel: Sim, rapaz, estamos convictos disso.
Mateus: Vocês podem me explicar melhor o que aconteceu? Quando? De quem vocês estão falando?
Iná: A 24 anos atrás eu dei entrada neste hospital e fui auxiliado pela vó da minha filha, mãe do Manoel. Minha filha assim que nasceu foi dada como morta e como portadora de síndrome de down, entretanto, nos chegou ao conhecimento, através de uma antiga enfermeira deste hospital, que a bebê não morreu. Segundo ela, a criança foi trocada por outra que, de fato morreu logo após o parto.
Mateus: Tudo bem, mas onde está esta enfermeira?
Manoel: Ela morreu há alguns dias.
Mateus: E como vocês conseguem me comprovar esta história?
Manoel: A gente não quer comprovar história. Nós queremos saber das crianças que nasceram aqui no mesmo dia e correr atrás desta história.
Mateus: Desculpa, mas preciso levar esta história para o conselho. Eu preciso de um tempo. Isso é muito grave. Com a ajuda de uma enfermeira ainda?
Iná: Sim, muito grave e nós temos certeza de que vocês podem ao menos nos apontar onde está esta menina agora.
Mateus: Claro, com toda a certeza vamos ajudar. Apenas tenho que decidir em conselho o que fazer. Entendem que não posso fazer nada sozinho? A dona deste hospital também está viajando. Quando ela voltar tudo será decidido.
Manoel: Então estamos combinados. Mas, espero uma resposta em menos de duas semanas. Caso isso não ocorra eu vou tomar outras providências. Este é o meu cartão, sou advogado e posso ajudar em algo que for necessário.
Mateus: Pode deixar. Vou fazer de tudo para acelerarmos estas decisões.
Manoel e Iná se retiram da sala de Mateus e vão embora. Mateus dá um soco na mesa.
Mateus: Inferno! Não bastasse a Lívia estar atrás, agora os pais da desgraçada estão atrás dela também!

Tiago está com Tatiana na sala mostrando camisas para a irmã.
Tiago: Qual das três é a melhor?
Tatiana: Você quer saber qual das três é a menos pior, não é?
Tiago: Que seja!
Tatiana: Por que você não compra uma camisa nova pra ir no jantar de aniversário da Ellen? Não é todo dia que você vai numa casa chique. E depois você usa ela para outros eventos.
Tiago: Estou sem grana sobrando este mês.
Tatiana: Pede pra mãe.
Tiago: Nossa mãe não é banco e já temos mais de 20 anos, Tatiana!
Tatiana: Pede alguma camisa emprestada com o Mateus. Ele deve ter alguma boa que não usa muito.
Tiago: Menos ainda que eu vou pedir pra ele.
Tatiana: Deixa de ser cabeça dura, meu irmão! Olha, que quiser eu peço.
Tiago: Então deixa, eu mesmo escolho a camisa.
Tatiana: Tá bom, nervosinho, esta daqui “ó”. É a melhorzinha. E coloca aquela calça que tu usou no casamento do Mateus que vai combinar.
Tiago: Só espero que este jantar seja tranquilo. Não quero passar vergonha na frente de estranhos.

Bárbara que estava chegando ao hospital quase dá de cara com Manoel e Iná, mas consegue se esconder atrás de um carro e espera eles passarem.
Bárbara: Será que eles já descobriram tudo? Não pode ser! (resmunga)
Continuando, ela vai até a recepção querendo informações sobre Lívia.
Bárbara: Boa tarde. Gostaria de saber se a dona deste hospital está presente.
Ângela: A doutora Lívia está viajando. Gostaria de deixar algum recado?
Bárbara: Não, seria somente com ela mesmo.
Neste momento Mateus passa ao lado de Bárbara com a voz aflita falando ao telefone.
Mateus: ... Não me lembro direito, mãe, tem que ver aqui no cartão que me deixaram. Só pode ser eles. Que inferno! Se a Lívia estivesse aqui com certeza já teriam feito a ceninha melodramática de reencontro...
Bárbara ouve a conversa de Mateus ao telefone e resolve saber quem é aquele rapaz que falava ao celular.
Bárbara: Por gentileza, você saberia me dizer quem é aquele moço que passou aqui falando no celular?
Ângela: Aquele é o Mateus, diretor do hospital e marido da doutora Lívia.
Bárbara: Nossa, ele parece estar estressado. Deve ser complicado trabalhar aqui.
Ângela: Ele sempre é meio estourado, mas acho que ele ficou assim depois da visita de um casal agora há pouco.
Bárbara: Nossa, menina. Sério? Será que vieram reclamar de alguma coisa?
Ângela: Pelo jeito sim, mas não me disseram o assunto. Bom, eu preciso entregar estes papeis no quarto andar. Com licença.
Bárbara: Claro, toda. E eu preciso ir embora. Obrigada pela atenção.
Ângela: Imagina.

Bárbara segue Mateus até o lado de fora do hospital e observa-o falando pelo celular em um canto não movimentado do jardim.
Mateus: ... o que eu vou fazer, agora? Bom. Decidi que primeiro vou ver quem são estes pais dela e depois eu decido o que faço. Mesmo que sejam ricos, eu não quero gente pra estorvar a minha relação com a Lívia, eu tenho um objetivo e não vou deixar que ninguém atrapalhe.
Vera: Filho, isso é um sinal pra você desistir dessa tosquice de se apossar de tudo que era da família Veloso. Chega de remoer mágoa! Ainda dá tempo!
Mateus: Se depender de mim ela nunca vai encontrar estes pais! Bom, vou desligar, mãe, pois tenho que resolver muita coisa ainda hoje. Te amo, beijos.
Vera: Mateus? Mateus! Desligou! Além de tudo ficou mal educado depois de crescido. Eu mereço mesmo.

Mateus desliga o celular e quando está caminhando para retornar à sua sala é surpreendido por Bárbara que entendeu o teor da reação de Mateus em relação a conversa tida com Manoel e Iná.
Bárbara: Desculpa incomodar, posso falar com você?
Mateus: Que susto, minha senhora. Eu estou com pressa, fale com a minha atendente e ela vai marcar uma hora para conversarmos.
Bárbara: É rápido e do seu interesse.
Mateus: Agora não dá, minha senhora. Se for reclamação de algum atendimento ruim no hospital, nós temos um setor pra isso. Agora preciso ir.
Bárbara: É sobre este casal que acabou de falar com você. Eu sei de todo o assunto e acho que podemos nos entender.
Mateus fica paralisado com o que Bárbara fala a ponto de deixar o celular cair no chão.



Mateus convida Bárbara para subir até a sua sala, para conversarem com mais privacidade. Sem pestanejar, a megera pega o elevador com Mateus e adentra a sua sala:
Mateus: Seja direta, minha senhora. O que a senhora sabe do assunto que tratei com aquele casal que saiu daqui?
Bárbara: Casal? Eles se apresentaram desse jeito?
Mateus: Não, mas pra mim é como se fossem. Tiveram uma filha que segundo eles foi trocada na nossa maternidade. Não sei até que ponto isso é verdade.
Bárbara: Você sabe que é verdade, rapaz.
Mateus: Como pode ter tanta certeza?
Bárbara: Eu ouvi o tom da sua conversa ao telefone. Parece que você já esperava por isso. Você é marido da moça que foi trocada, não?
Mateus: Ora! Ora! Temos uma Sherlock Holmes aqui. Como você sabe de tudo isso?
Bárbara: Meu querido, quando tudo isso aconteceu e você ainda era uma criancinha ranhenta, eu já era esperta. Foi a minha falecida sogra, avó da sua esposa, que fez tudo isso e eu sabia de tudo, apenas não sabia quem havia adotado a menina.
Mateus: Então indiretamente você é cumplice de tudo isso?
Bárbara: Diremos que eu não menti, apenas omiti.
Mateus: E qual o seu interesse?
Bárbara: Afastar a bastardinha. E foi melhor pra ela, hoje ela é herdeira de uma fortuna e está bem melhor do que se ela fosse criada pela mãe dela, uma empregada sem estudos.
Mateus: A mãe da Lívia é uma empregada doméstica? (Diz Mateus rindo)
Bárbara: Sim, daquelas que falam “Cancumprido”, “Estrupo” e por aí vai (Diz Bárbara rindo junto com Mateus)
Mateus: Como a vida é engraçada, essa menina criada que nem uma princesa é filha de uma matuta? Não dá pra crer. A vida é injusta mesmo.
Bárbara: Por que injusta?
Mateus: Por nada, não.
Bárbara: Por que você não quer que a sua esposa fique sabendo dos verdadeiros pais dela? Qual seu plano por trás.
Mateus: Ué, porque eu não quero que ela sofra. Apenas isso.
Bárbara dá mais uma de suas gargalhadas estridentes, enquanto é advertida por Mateus.
Mateus: Pare com isso, vai chamar atenção.
Bárbara: Você acha que eu sou trouxa, menino? Olha pra minha cara. Eu conheço gente da sua laia. Você não quer ninguém pra atrapalhar seu golpezinho do baú barato!
Mateus: Olha como você fala comigo, minha senhora.
Bárbara ignora e continua zombando da cara de Mateus.
Bárbara: Olha, eu também dei um golpe no pai desta menina, mas eu não era pé rapado que nem você era, então foi mais fácil de disfarçar. Sim, porque dá pra ver pela sua cara e seu jeito de falar que tua criação foi em Colombo e não no Champagnat.
Neste momento Mateus fica irritado e pega Bárbara pelo ombro e a joga na parede com força. 
Mateus: Para de bancar a engraçadinha, sua patrícia de meia idade!
A megera ao invés de se intimidar tem uma súbita atração pelo rapaz.
Bárbara: Nossa, que força, rapaz. Com certeza não é um desses playboyzinhos com quem eu já namorei. Gostei. Isso sim é homem de verdade.
Mateus: Quem é você? O que você quer de mim?
Bárbara: Meu nome é Bárbara e eu tenho interesse em manter essa bastardinha da sua esposa longe do meu marido, assim como você tem o mesmo interesse, para manter seu controle em cima da herdeira. Temos motivos diferentes, mas o objetivo é o mesmo.
Mateus: E o que você acha que vai conseguir vindo aqui zombar da minha cara?
Bárbara: Calma, rapaz. Seja mais sangue frio. Estou brincando com você e propondo uma parceria. Garanto que você não vai se arrepender.
Mateus: E quem me garante que você não está blefando e tramando junto com aqueles dois?
Bárbara: Bom, pelo visto você não é tão esperto quanto eu imaginava. Enfim, eu vou embora, pois por hoje eu vi que você não vai decidir nada. Se você decidir unir forças comigo, aqui está meu telefone. Já tenho um plano na cabeça. Só, por favor, não demore, pois eu detesto essa mania de pobre brasileiro de ficar fazendo os outros esperar. Já nasci de sete meses por que não tenho paciência pra esperas. Tchau, garotão.
Bárbara se despede dando um beijo no rosto de Mateus, deixando-o irado e intrigado ao mesmo tempo.

Mateus senta em sua cadeira, olha para o retrato de seu pai que está na mesa e pensa consigo mesmo.
E agora, pai? O que eu faço?

Enquanto isso na universidade almoçavam juntos Tiago, Priscila e Ellen. 
Priscila, como é muito boca aberta, não conseguiu segurar a história da irmã desaparecida.
Priscila: É isso mesmo que vocês ouviram: eu tenho uma irmã perdida por aí. Minha mãe já tinha me contado esta história, mas só agora ficou sabendo da troca e tudo mais.
Tiago: E o pai dessa menina é rico?
Priscila: Não é rico, mas é muito bem de vida, tem posses, enfim.
Ellen: E já sabem onde está esta menina?
Priscila: Ainda não, mas estão procurando.
Tiago: Bom, meninas, vou indo porque a minha aula de Topografia vai começar. Vocês se comportem. Beijos.
Ellen: Ti, antes de você ir, quero saber se posso contar com você para o meu jantar de aniversário.
Tiago: Não sei. Seus pais não vão implicar?
Ellen: Claro que não.
Tiago: Quando vai ser?
Ellen: Neste sábado às 19h.
Tiago: Tá, eu vou. Agora vou correr porque este professor faz a chamada assim que entra e dá falta mesmo se você chegar um minuto antes. Beijos, gurias.

Tiago vai para a aula e Ellen e Priscila ficam conversando.
Priscila: Seu pai eu não sei, mas a sua mãe é capaz de implicar com o Tiago.
Ellen: Estou torcendo pra que não. Mas, você sabe como é a dona Bárbara. Eu amo a minha mãe, mas eu admito que muitas vezes ela ultrapassa os limites. Mas, já que você tocou neste assunto, eu quero te avisar uma coisa.
Priscila: “Vish”, quando você fala deste jeito eu até imagino o que pode ser.
Ellen: Eu pretendo assumir o nosso namoro para os meus pais no meu aniversário. O que você acha?
Priscila: Você está preparada pra isso? Não quero te pressionar.
Ellen: Eu quero! Eu preciso disso logo! Já vou fazer 23 anos e não posso ficar nesta angústia.
Priscila: Tudo bem. Eu também me sinto meio que obrigada a dar logo este passo na minha vida e de maneira mais clara te apresentar como minha namorada pra minha mãe.
Ellen: Ai, amor é isso aí! Precisamos nos libertar!
Ellen e Priscila se abraçam e se despedem rumo às suas respectivas salas de aula.

Enquanto isso, Mateus toma uma decisão e liga para Bárbara:
Mateus: Alô, Bárbara? É o Mateus. Vamos conversar.
Bárbara: Agora sim você está provando que é esperto. Sábado às 14h me encontre no estacionamento do Shopping Pátio Batel. Estarei num Renault Duster Prata.
Mateus: Combinados.
Bárbara desliga o telefone e imediatamente liga para outro contato.
Bárbara: Alô, Vânia? Não faça nada neste sábado à tarde. Temos muito que conversar.

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