Dom de Amar | Cap. 04





DOM DE AMAR
by
EVERTON BRITO

Capítulo 04



FADE IN:

01 INT. ARAS MUÑOZ, QUARTO DE BENTO- DIA.

Em Bento, apertando a faca contra o pescoço de Sarita, que assustada, soluça.

SARITA
Bento… me solta… por favor…

BENTO
Eu vejo todos eles, eu escuto todos eles… Você é um deles. Eu sei, eu escuto. Eu escuto bem aqui na minha cabeça. E não para nunca!

SARITA
Bento. Me esculta. Eu… eu não sou um deles, eu não sou…

Ele gira para frente do espelho da penteadeira. A imagem dos dois reflete no espelho.

BENTO
(chora)
Eles são maus… eles gritam comigo… todo dia…

SARITA
Eu não tô gritando. Você ouve? Eu não sou um deles… Tá vendo? Não sou. Eu não grito com você…

Bento olha fixo para a imagem no espelho e solta Sarita devagar. Larga a faca no chão. Ajoelha-se no chão, inerte. Sarita, ainda com a respiração ofegante, consegue correr e sair do quarto, trancando a porta.

02 EXT. RUA-DIA.

Em Marina com a mão no braço sangrando. O tiro havia pego de raspão.

MARINA
(chora)
Não me mata, por favor…

Nesse exato momento, Demétrio chega correndo e se põe na sua frente.

MARINA
Demétrio, não!

DEMÉTRIO
Marina, fica aí! Eu não vou deixar que eles te façam mal!

Demétrio movimenta o lábio como sinal para o Homem ir. Rapidamente ele guarda a arma e parte, acelerado. Marina agarra-se no braço de Demétrio, chorando de alívio.

DEMÉTRIO
Cê tá bem?

MARINA
Eu pensei que ia morrer…

DEMÉTRIO
Meu Deus, você está sangrando! E o bebê?

MARINA
Tá tudo bem. A bala passou de raspão. Eu só quero ir para casa. Me leva pra casa, Demétrio.

Demétrio encosta a cabeça de Marina em seu peito, alisando seu cabelo.

03 INT. HOSPITAL, QUARTO- DIA.

POV de Arnaldo.
Ele abre os olhos devagar. Visão turva, não muito nípara. Vê um doutor olhando para ele, logo depois Sérgio. Passa a língua nos lábios. Engole em seco.

SÉRGIO
O que aconteceu?

DOUTOR
Você sofreu um acidente de carro mais cedo. Logo depois do seu casamento.

ARNALDO
(arregala os olhos)
Meu Deus, e a Clarissa?! Onde é que ela está?

SÉRGIO
Calma, amigo! Ela está bem! Os ferimentos foram bem menos graves que os seus.

ARNALDO
Ah, que bom… Eu lembro que o acidente foi horrível… Não foi a lua de mel que imaginei para mim.

Arnaldo sorri.

ARNALDO
Eu vou deixar o efeito da anestesia passar pra ir vê-la, dar um beijo nela… Acredita que não sinto nada do pescoço para baixo? Que coisa doida.

O Médio e Sérgio se entreolham.

ARNALDO
Que foi, gente? Vocês não me disseram que estava tudo bem? O que é que foi?

O Médico hesita um pouco.

MÉDIO
Nós realizamos um raio-x completo em você. Você passou por uma cirurgia e… Arnaldo. Não é efeito da anestesia o que você sente.

Silêncio.

ARNALDO
Como assim?

Arnaldo olha para Sérgio e depois para o médico.

MÉDICO
Como você disse, foi um acidente horrível. O baque foi muito grave. Você… Você perdeu os movimentos do pescoço para baixo. Arnaldo, você ficou tetraplégico.

ARNALDO
(chora)
Não… Não…

Arnaldo faz um esforço para se levantar, mas falha e se desespera mais ainda.

ARNALDO
Não! (grita) NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÀO!

SONOPLASTIA: Happier- Marshmello ft. Bastille.

Sérgio chora tentando acalmar Arnaldo.

FADE OUT.


FADE IN:

04 INT. CASINHA DE MARINA- DIA.

Demétrio e Marina adentram as pressas.

CECÍLIO
Ponha ela na cadeira!

Demétrio e Marina se surpreendem com a presença de Cecílio.

MARINA
Você acordou…

DEMÉTRIO
Quem é?

Marina ia explicar, mas Cecílio interrompe.

CECÍLIO
Precisamos cuidar desse ferimento antes.

Marina nota algumas coisas de cuidados médicos em cima da mesa. Estranha.

MARINA
Como sabia que eu tinha me ferido?

CECÍLIO
Uma vizinha… Ela veio correndo até aqui e então me explicou tudo. Eu disse que não a conhecia, mas ela estava nervosa. Venha.

Cecílio tira Marina das mãos de Demétrio e a guia até a cadeira. Cecílio olha Demétrio por cima do ombro com um ar de repressão. Demétrio o encara. Uma forte e rápida ventania passa pelo local.

Cecílio ajoelha-se no pé da cadeira.

CECÍLIO
Vai arder um pouco.

Cecílio joga um líquido no braço de Marina, que imediatamente grunhi de dor.

CECÍLIO
Marina.

Cecílio toca seu braço. Marina sente um profundo arrepio, que a faz inspirar ar. Os dois se entreolham.

Cecílio a larga depressa.

CECÍLIO
(desorientado)
Eu só preciso enfaixar seu braço, amanhã… amanhã deve estar melhor. O importante é que o bebê está bem.

MARINA
Você é enfermeiro?

CECÍLIO
Eu?

Cecílio ia responder, mas Demétrio interrompe.

DEMÉTRIO
Bom. Já que tudo está bem e você está em segurando, eu vou.

MARINA
Demétrio. Obrigado. Sem você eu nem sei o que teria sido de mim e de meu filho.

DEMÉTRIO
(sorri)
Eu só estava no lugar certo e na hora certa, eu/

CECÍLIO
(interrompe)
Você e seu bebê estão muito bem protegidos, não se procupe. Alguém lá no céu se importa muito com vocês.

Demétrio semicerra os dentes, ainda encarando Cecílio.

DEMÉTRIO
Claro. Ele tem toda razão. Até breve. Venho ver como você está.

MARINA
Volte, por favor… Ter você por perto faz me sentir viva. Me sinto bem.

Demétrio sorri e sai. Marina olha para o rosto de Cecílio e estranha.

MARINA
Seus olhos.

Cecílio olha para Marina.

MARINA
Ontem eu tive a impressão de estarem azuis, hoje parecem estar verdes.

CECÍLIO
É… São azuis esverdeados. Deve ser por isso a confusão.

Em Cecílio, aliviado.

CECÍLIO
Me chamo Cecílio.

MARINA
Ok, Cecílio. Agora você vai me contar como e por quê chegou aqui daquela maneira ontem. Quem é você afinal?

Cecílio engole em seco.

05 INT. ARAS MUÑOZ, COZINHA- DIA.

Sarita está na cozinha. Ela põe um copo de suco na bandeia. Ao lado, estão os frascos de remédio.

Subitamente uma melodia de piano começa a ser tocada.

Onde Upon a Dream de Lana Del Rey é reproduzida.

SARITA
De onde vem isso?

Sarita começa a seguir o som da melodia. CAM acompanha. Distante do corredor, na sala se estar, Sarita consegue ver Bento tocando no piano

SARITA
(assustada)
Bento?

Hesitante, Sarita segue adiante. Para quando dar para ver o rosto de Bento, que se concentra em tocar. De repente ele passa a olhar para ela, ainda a tocar. Porém, seu semblante é de raiva. Ele afunda os dedos no teclado do piano. Sarita recua um pouco. Logo depois, a expressão de Bento suaviza. Ele ri, sarcasticamente misterioso, para ela, que estranha ainda mais.

SARITA
Bento… você tá me assustando.

Bento começa a tocar rápido demais e a rir alto.

SARITA
Bento, pare!

Bento ri ainda mais.

SARITA
Bento…

Bento ri compulsivamente. Sarita corre de volta à cozinha e fecha a porta depressa. Passa a chorar.

SARITA
Ah, meu Deus… O que está acontecendo?

06 INT. CASINHA DE MARINA- DIA.

MARINA
Então é isso? Você não lembra de nada?

Marina levanta-se, toca sua barriga e passa a andar de um lado para o outro.

CECÍLIO
Sim. Eu sei quem eu sou, mas o resto da minha memória foi apagada. É como se fosse a primeira vez que eu piso na terra.

MARINA
Então seria inútil perguntar como perdeu as roupas?

CECÍLIO
(sorri)
Aparentemente sim.

Cecílio levanta-se e vai até Marina. Seis rostos se iluminam com a luz do sol. Eles se entreolham.

CECÍLIO
Tem certeza que você é humana?

MARINA
Eu acho que sim…

Marina ri.

MARINA
Você não?

Cecílio ri. Os dois voltam a se entreolhar.

MARINA
Você tem uma ferida na barriga, não sei se notou. Eu vou preparar um remédio pra passar.

Marina sorri e vira-se. Cecílio senta-se, encarando-a.

06 INT. ARAS MUÑOZ, QUARTO DE LEANDRO- NOITE.

Demétrio olha fixamente para uma foto de Leandro na escrivaninha.

DEMÉTRIO
Desgraçado! Desgraçado… Até depois de morto consegue ser irritante. Sabe que você poderia estar vivo se não tivesse se casado com a insuportável da Melissa? Se não tivesse se intrometido entre mim e Marina… ela era minha! Minha e você roubou isso de mim, seu infeliz.

Demétrio começa a chorar.

DEMÉTRIO
Você roubou… E agora me aparece aquele outro infeliz que eu não sei de onde veio, mas eu vou fazê- lo voltar pra lá… E tem o bebê. O maldito bebê. O seu bebê. Eu quero que ele morra! Morra, de preferência antes mesmo de nascer, morra! Mas não tem problema, não tem… se ele nascer, eu mesmo tratarei de dar um fim nele. Eu a quero só pra mim. Não aceito dividí-la com mais ninguém… ninguém.

Demétrio continua a olhar a foto de Leandro.

07 INT. HOSPITAL, QUARTO DE ARNALDO- NOITE.

CAM.
Arnaldo encontra-se imobilizado. Inerte, olhando para o teto.
   A porta é aberta. Adentra Clarissa, com alguns ferimentos no rosto, mas nada muito grave.

CLARISSA
Arnaldo…

ARNALDO
Meu amor… Chegue mais perto. Eu preciso te ver.

Clarissa anda para mais próximo da cama.

CLARISSA
A gente precisa conversar.

ARNALDO
Clarissa, eu sei que eu não posso te tocar agora, mas eu vou poder. A gente pode ter nossa lua de mel e vai ser lindo… vai ser… como você nunca imaginou. Eu vou fazer de você a mulher mais feliz do mundo.

Clarissa chora.

ARNALDO
Aí a gente vai fazer tudo como você sempre sonhou. Os nossos filhos correndo pela sala, o jardim da nossa casa e…

CLARISSA
(grita)
Não, não, não. Para, por favor! Para de se enganar, Arnaldo. Você tá tetraplégico!

ARNALDO
Clarissa…

CLARISSA
Nada disso vai mais acontecer. Eu sei disso, você sabe. Talvez você nunca mais levante de uma cadeira de rodas. Eu preciso de liberdade, de independência, entende? Eu não posso passar a minha vida toda niso. Eu não posso sacrificar a minha vida por você.

ARNALDO
Você vai me abandonar?

CLARISSA
Eu sonho sim em construir uma família. E eu vou fazer isso, mas com você não. Não é futuro pra mim. Desculpa.

ARNALDO
(chora)
Não…

CLARISSA
Desculpa…

ARNALDO
Clarissa…

Clarissa dá as costas e segue andando.Bate a porta.

ARNALDO
CLARISSAAAAAAAAAA!
Não me abandona… Clarissa…

Arnaldo chora. Suas lágrimas caem no travesseiro. Ele grita de desespero e dor.

08 INT. CASINHA DE MARINA- NOITE.

Cecílio está sentado na cama enquanto Marina limpa o ferimento em sua barriga.

MARINA
A minha vó dizia que esse remédio cura dor de tudo. Até de coração.

CECÍLIO
Acho que ela tinha razão. É milagroso.

Marina sente-se desconfortável.

CECÍLIO
Espera… Deixa eu me ajeitar, eu vou subir um pouco pra você achar uma posição melhor. Carrega uma criança não deve ser fácil.

MARINA
Não mesmo. Mas vale a pena quando a gente ver o rostinho delas. É a coisa mais linda do mundo.

Cecílio tenta ajudar e pega em sua barriga. Imediatamente Marina olha para ele. Os dois se entreolham.

MUSIC FADE: Nossa Conversa- Kell Smith.

MARINA
Seu toque… Me traz uma paz…

Marina toca o rosto de Cecílio. Ele fecha os olhos com seu carinho.

MARINA
Você é perfeito…

Marina, inebriada ao olhar para Cecílio, desvia-o para o pequeno espelho atrás de Cecílio. Se assusta, sem ação. CAM.
Revela que o espelho reflete a imagem de Cecílio, bem como as grandes asas brancas que o mesmo carrega nas costas. Elas brilham.

MARINA
Asas… Cecílio…

Cecílio imediatamente abre os olhos e se assusta. Involuntariamente suas asas surge. Marina grita e salta da cama com a mão na boca. Confuso e apavorado, Cecílio se encurrala na parede.

Seus olhos mudam de cor. Agora adotam um tom verde esmeralda.

Uma grande claridão toma conta da cena.

FADE OUT.
FIM DO CAPÍTULO.


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