Mateus: Eles esconderam isso de você todo
este tempo? Mesmo depois que você se tornou adulta? Que horrível! Te enganaram
desse jeito!
Lívia: Ela me disse que minha mãe deu
entrada no hospital com nome falso e depois que recebeu alta foi embora e não
quis saber de mim. Não faz sentido tudo isso. Minha vida foi uma mentira!
Mateus: Você não é filha de quem você
achava que era? Eu já vi este filme antes.
Lívia: Já? Com quem?
Mateus: Não, eu vi algum filme com essa
história. Enfim, você vai fazer o que agora?
Lívia: Procurar meus pais biológicos.
Claro, primeiro enterrar a minha mãe.
Mateus: Pra quê mexer neste passado? Se a
sua mãe não quis nem te ver após seu nascimento não tem lógica.
Lívia: Não tem lógica mas é um direito
meu! A gente vai ter um filho, Mateus! É mais do que justo ele saber da onde
vem, se ele pode ter alguma doença genética, assim como eu posso ter também!
Mateus: Você agora é dona de um hospital,
se precisar de alguma coisa a gente leva ele no hospital e pronto!
Lívia: Está decidido, Mateus! Eu vou
descobrir quem são meus pais e conto com a sua ajuda.
Mateus: Tudo bem, Lívia. Se assim você
quer, assim será. Agora, não diga que eu não avisei se você se decepcionar.
Lívia
ignorou totalmente os pedidos do marido e no dia após o enterro de sua mãe ela
começou a fazer uma força tarefa para descobrir o paradeiro de sua mãe
biológica.
Lívia: Vamos começar pelos dados que já
foram digitalizados pelo hosptal. Deve ter alguma coisa.
Enquanto
isso Mateus contava tudo a sua mãe:
Mateus: Isso mesmo, mãe. Ela não é filha
do Eugênio e da Helena. Ela não tinha direito a nada do que ela tem hoje.
Vera: Também não é assim, Mateus. Ela foi
adotada legalmente e sempre foi tratada como filha. Ela tem sim direito a tudo
que ela tem hoje após a morte dos pais.
Mateus: Enquanto ela tem direitos
assegurados um monte de gente que biologicamente tem direito a pensão e outras
coisas acabam vivendo uma vida de merda. Realmente, muito justa essa vida.
Vera: Mateus, você se tornou uma pessoa
muito rancorosa por conta do que aconteceu com o seu pai. Eu aprendi nessa vida
que nem sempre os outros podem sofrer simplesmente porque nós sofremos.
Mateus: Mas no caso da nossa família o
nosso sofrimento tem um nome bem conhecido: Eugênio! Olha, mãe, a senhora pode
vir com esse papo todo cristão de perdão, de não guardar rancor, mas eu não
tenho essa mesma virtude.
Vera: Eu nunca disse que perdoei o
Eugênio. Eu disse que isso não vai arrumar a minha vida. Eu sempre prezei por
você e pelos seus irmãos. Vocês sempre foram o motivo das minhas preocupações e
do fato de eu não ter batido de frente com aquele desgraçado. E por falar em
desgraçar a vida dos outros, porque você não segue aquilo que você tanto
desprezou a vida inteira, que é a mentira, e para de trair a Lívia com a
Fernanda?
Mateus: Não muda de assunto, dona Vera.
Vera: Não estou mudando de assunto.
Estávamos falando de falta de caráter e continuo neste assunto, apenas mudei a
pessoa. Eu não criei filho pra ser canalha. Eu só não conto as coisas para a
Lívia porque eu quero distância desse relacionamento. Nunca abençoei e nunca
vou abençoar.
Mateus: Eu gosto da Fernanda e assim que
eu fizer o que quero com a Lívia eu vou me separar pra ficar com a Fernanda.
Vera: E enquanto isso você a mantém como
amante? Eu sinceramente não sei como ela aguenta isso.
Mateus: Por que ao contrário da senhora,
ela me entende e sabe que isso logo se resolverá.
Vera: Sim, se resolverá da pior maneira
possível. A Lívia não tem culpa de nada. Não sei porque perco meu tempo com
você ainda. Eu vou lá terminar de limpar o restaurante que eu ganho mais.
Vera
deixou Mateus falando sozinho o que o deixou irritado e o fez ir embora para o
apartamento de Fernanda.
Mateus: Mãe, você não vai falar comigo mesmo?
Vera: Quer saber? Não! Eu vou assistir Linha da Vida que está ótima hoje pelo que eu vi nas chamadas e você fica ai com esse azedume todo. Com licença.
Mateus: Então eu vou embora. Ignorância desnecessária!
Chegando lá Mateus contou tudo o que Lívia havia dito
a ele dias antes. Fernanda perguntou ao amante:
Fernanda: Se ela realmente encontrar os
pais dela é bem possível que eles possam se aproveitar da herança dela.
Mateus: Sim, é isso que me deixa irritado.
Quando finalmente só sobra eu, ela e agora o nosso filho vem essa bomba! Vou
ter que começar do zero.
Fernanda: Calma também! Não é assim tão
rápido. Talvez ela nem vá saber quem são esses pais.
Mateus: A mãe dela a abandonou no mesmo hospital
do qual agora ela é a diretora geral. Uma hora ou outra isso vai acontecer, mas
posso postergar, posso fazer alguma coisa pra adiar ou até descobrir antes que
a Lívia.
Fernanda: Vai ser bem difícil, mas enfim,
você faz o que achar melhor. Mas, te chamei aqui porque preciso falar com você.
Mateus: Não é sobre aquele assunto do
nosso último encontro?
Fernanda: É sim.
Mateus: Por favor Fernanda, já disse que
esta situação é temporária.
Fernanda: Mateus, como a situação é
temporária se você está prestes a ser pai, a Lívia agora está metida com essa
história da verdadeira origem dela e o casamento foi em separação parcial de
bens?
Mateus: E você vai me largar por causa
disso?
Fernanda: Eu não vou te largar. Apenas vou
ficar afastada até você resolver esta situação. Eu não me sinto bem com isso,
especialmente pela Lívia.
Mateus: Você está com dó de alguém que não
conhece?
Fernanda: Não a conheço, mas sou mulher e
sei como ficaria se eu estivesse no lugar dela. Juro que tento entender você,
mas o que você me demonstra é que apenas está a fim de ganhar dinheiro em cima
dela.
Mateus: Eu já cansei de te explicar que
não é isso. Eu tenho um projeto por trás.
Fernanda: Justiça? Pelo que? Você nunca me
explicou! Sempre dizia que a família dela é culpada pela sua família ter sido
desgraçada no passado, mas não me fala o que aconteceu. Assim fica difícil
estar ao seu lado.
Mateus: Você não me entende! Eu não posso
contar. Envolvem pessoas que eu amo, especialmente a minha mãe.
Fernanda: Então você escolheu o seu caminho.
Melhor você ir embora.
Mateus: O que?
Fernanda: Isso mesmo. Por favor, saia.
Mateus
pega Fernanda pelo braço e diz:
Mateus: Você não é louca de fazer isso
comigo.
Fernanda: Mateus, me solta, você está
machucando meu braço.
Mateus: O que eu estou fazendo também vai
resultar em coisas boas para você. Tenha paciência!
Fernanda: Mateus, meu braço! Para ou eu
grito e o pessoal do andar inteiro vai escutar e virá ver o que está
acontecendo.
Mateus
solta o braço de Fernanda e vai embora chorando de raiva, enquanto Fernanda
respira aliviada por ter ficado sozinha:
Fernanda: No que o Mateus está se transformando, meu deus?
Em
outro ponto da cidade de Curitiba Manoel e Bárbara viviam um casamento infeliz.
Casados
a mais de vinte anos há muito eles não tinham um entrosamento digno de um casal
apaixonado.
Manoel,
que sempre foi um jovem mimado e mal educado com o passar dos tempos foi
notando a vida fútil que conservou ao lado de Bárbara. Bárbara passou de esposa
para um fardo. Apesar de tudo ela nunca cogitou dar o divórcio ao marido. Nos
últimos anos Manoel passou a chegar mais tarde do que o normal em casa:
Bárbara: Boa noite, Manoel. Chegou cedo
para o café da manhã do dia seguinte.
Manoel: Cedo mesmo, tentei adiar ao máximo
minha vinda pra casa para não te ver, Bárbara, mas pelo jeito falhei.
Bárbara: Falhou sim, assim como tem
falhado há anos tentando manter essa família em pé.
Manoel: Bom, você tem a opção de me dar o
divórcio.
Bárbara: E te dar o gostinho de me ver
pelas costas? Por favor, Manoel, eu não nasci ontem.
Manoel: Claro, o meu nome e posição social
lhe agradam. Bárbara, você não ganha um puto no bolso com seu escritório furado
de arquitetura, você sabe que depende de mim.
Bárbara: Você é bem ingrato. Depois de
mais de 20 anos nos dedicando a esta casa e a nossa família você não reconhece
nada mesmo!
Manoel: Esta casa é mantida pela ajuda de
diaristas e a nossa filha se tivesse crescido sem mãe teria sido melhor pra ela!
Bárbara: Quer saber, eu vou me deitar,
pois não sou obrigada a ouvir desaforos de você quando está bêbado.
Manoel: Vai, foge da sua vida e da sua
realidade.
Ellen aparece vinda da cozinha.
Manoel: Minha, filha, não vi que você estava aí.
Ellen: Faz tempo que vocês não percebem nada, inclusive o quão ridículo é tudo isso. Mas, não tem como não perceber vocês. A vizinhança deve perceber também.
Manoel: Desculpa, Ellen. É que a sua mãe...
Ellen: Pai, um relacionamento é feito pelos dois e não só por um. Olha, apesar de tudo, isso é um problema de vocês. Eu vou me deitar. Boa noite.
Manoel: Boa noite.
Ellen aparece vinda da cozinha.
Manoel: Minha, filha, não vi que você estava aí.
Ellen: Faz tempo que vocês não percebem nada, inclusive o quão ridículo é tudo isso. Mas, não tem como não perceber vocês. A vizinhança deve perceber também.
Manoel: Desculpa, Ellen. É que a sua mãe...
Ellen: Pai, um relacionamento é feito pelos dois e não só por um. Olha, apesar de tudo, isso é um problema de vocês. Eu vou me deitar. Boa noite.
Manoel: Boa noite.
Manoel
se deitou no sofá e ali mesmo pernoitou acordando quase dez horas da manhã no
dia seguinte. Para sua sorte era sábado e ele não precisava trabalhar. Verificou
que Bárbara e a filha do casal, Ellen, não estavam em casa.
Manoel: Sem a Bárbara eu vou ter um pouco de sossego. Deixa eu ver se já veio e-mail do meu contador... Caramba! Que caixa de spams cheia. Meu TOC doeu agora!
Quando foi verificar sua caixa de spams constatou que havia um e-mail recebido mais de três semanas atrás de uma pessoa desconhecida, com a seguinte mensagem:
Manoel: Sem a Bárbara eu vou ter um pouco de sossego. Deixa eu ver se já veio e-mail do meu contador... Caramba! Que caixa de spams cheia. Meu TOC doeu agora!
Quando foi verificar sua caixa de spams constatou que havia um e-mail recebido mais de três semanas atrás de uma pessoa desconhecida, com a seguinte mensagem:
“Olá,
Sr. Manoel. Me chamo Joana e procurei por muito tempo o senhor, mas não
consegui o encontrar antes. Preciso falar urgentemente sobre a sua filha
falecida após o parto. Segue o endereço do asilo onde moro. Peço que venha o
mais rápido que puder, pois não sei quanto tempo de vida ainda tenho.”


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