DESTINO - Capítulo 05: Verifique sua caixa de spams


Mateus: Eles esconderam isso de você todo este tempo? Mesmo depois que você se tornou adulta? Que horrível! Te enganaram desse jeito!
Lívia: Ela me disse que minha mãe deu entrada no hospital com nome falso e depois que recebeu alta foi embora e não quis saber de mim. Não faz sentido tudo isso. Minha vida foi uma mentira!
Mateus: Você não é filha de quem você achava que era? Eu já vi este filme antes.
Lívia: Já? Com quem?
Mateus: Não, eu vi algum filme com essa história. Enfim, você vai fazer o que agora?
Lívia: Procurar meus pais biológicos. Claro, primeiro enterrar a minha mãe.
Mateus: Pra quê mexer neste passado? Se a sua mãe não quis nem te ver após seu nascimento não tem lógica.
Lívia: Não tem lógica mas é um direito meu! A gente vai ter um filho, Mateus! É mais do que justo ele saber da onde vem, se ele pode ter alguma doença genética, assim como eu posso ter também!
Mateus: Você agora é dona de um hospital, se precisar de alguma coisa a gente leva ele no hospital e pronto!
Lívia: Está decidido, Mateus! Eu vou descobrir quem são meus pais e conto com a sua ajuda.
Mateus: Tudo bem, Lívia. Se assim você quer, assim será. Agora, não diga que eu não avisei se você se decepcionar.

Lívia ignorou totalmente os pedidos do marido e no dia após o enterro de sua mãe ela começou a fazer uma força tarefa para descobrir o paradeiro de sua mãe biológica.
Lívia: Vamos começar pelos dados que já foram digitalizados pelo hosptal. Deve ter alguma coisa.
Enquanto isso Mateus contava tudo a sua mãe:
Mateus: Isso mesmo, mãe. Ela não é filha do Eugênio e da Helena. Ela não tinha direito a nada do que ela tem hoje.
Vera: Também não é assim, Mateus. Ela foi adotada legalmente e sempre foi tratada como filha. Ela tem sim direito a tudo que ela tem hoje após a morte dos pais.
Mateus: Enquanto ela tem direitos assegurados um monte de gente que biologicamente tem direito a pensão e outras coisas acabam vivendo uma vida de merda. Realmente, muito justa essa vida.
Vera: Mateus, você se tornou uma pessoa muito rancorosa por conta do que aconteceu com o seu pai. Eu aprendi nessa vida que nem sempre os outros podem sofrer simplesmente porque nós sofremos.
Mateus: Mas no caso da nossa família o nosso sofrimento tem um nome bem conhecido: Eugênio! Olha, mãe, a senhora pode vir com esse papo todo cristão de perdão, de não guardar rancor, mas eu não tenho essa mesma virtude.
Vera: Eu nunca disse que perdoei o Eugênio. Eu disse que isso não vai arrumar a minha vida. Eu sempre prezei por você e pelos seus irmãos. Vocês sempre foram o motivo das minhas preocupações e do fato de eu não ter batido de frente com aquele desgraçado. E por falar em desgraçar a vida dos outros, porque você não segue aquilo que você tanto desprezou a vida inteira, que é a mentira, e para de trair a Lívia com a Fernanda?
Mateus: Não muda de assunto, dona Vera.
Vera: Não estou mudando de assunto. Estávamos falando de falta de caráter e continuo neste assunto, apenas mudei a pessoa. Eu não criei filho pra ser canalha. Eu só não conto as coisas para a Lívia porque eu quero distância desse relacionamento. Nunca abençoei e nunca vou abençoar.
Mateus: Eu gosto da Fernanda e assim que eu fizer o que quero com a Lívia eu vou me separar pra ficar com a Fernanda.
Vera: E enquanto isso você a mantém como amante? Eu sinceramente não sei como ela aguenta isso.
Mateus: Por que ao contrário da senhora, ela me entende e sabe que isso logo se resolverá.
Vera: Sim, se resolverá da pior maneira possível. A Lívia não tem culpa de nada. Não sei porque perco meu tempo com você ainda. Eu vou lá terminar de limpar o restaurante que eu ganho mais.

Vera deixou Mateus falando sozinho o que o deixou irritado e o fez ir embora para o apartamento de Fernanda. 
Mateus: Mãe, você não vai falar comigo mesmo?
Vera: Quer saber? Não! Eu vou assistir Linha da Vida que está ótima hoje pelo que eu vi nas chamadas e você fica ai com esse azedume todo. Com licença.
Mateus: Então eu vou embora. Ignorância desnecessária!



Chegando lá Mateus contou tudo o que Lívia havia dito a ele dias antes. Fernanda perguntou ao amante:
Fernanda: Se ela realmente encontrar os pais dela é bem possível que eles possam se aproveitar da herança dela.
Mateus: Sim, é isso que me deixa irritado. Quando finalmente só sobra eu, ela e agora o nosso filho vem essa bomba! Vou ter que começar do zero.
Fernanda: Calma também! Não é assim tão rápido. Talvez ela nem vá saber quem são esses pais.
Mateus: A mãe dela a abandonou no mesmo hospital do qual agora ela é a diretora geral. Uma hora ou outra isso vai acontecer, mas posso postergar, posso fazer alguma coisa pra adiar ou até descobrir antes que a Lívia.
Fernanda: Vai ser bem difícil, mas enfim, você faz o que achar melhor. Mas, te chamei aqui porque preciso falar com você.
Mateus: Não é sobre aquele assunto do nosso último encontro?
Fernanda: É sim.
Mateus: Por favor Fernanda, já disse que esta situação é temporária.
Fernanda: Mateus, como a situação é temporária se você está prestes a ser pai, a Lívia agora está metida com essa história da verdadeira origem dela e o casamento foi em separação parcial de bens?
Mateus: E você vai me largar por causa disso?
Fernanda: Eu não vou te largar. Apenas vou ficar afastada até você resolver esta situação. Eu não me sinto bem com isso, especialmente pela Lívia.
Mateus: Você está com dó de alguém que não conhece?
Fernanda: Não a conheço, mas sou mulher e sei como ficaria se eu estivesse no lugar dela. Juro que tento entender você, mas o que você me demonstra é que apenas está a fim de ganhar dinheiro em cima dela.
Mateus: Eu já cansei de te explicar que não é isso. Eu tenho um projeto por trás.
Fernanda: Justiça? Pelo que? Você nunca me explicou! Sempre dizia que a família dela é culpada pela sua família ter sido desgraçada no passado, mas não me fala o que aconteceu. Assim fica difícil estar ao seu lado.
Mateus: Você não me entende! Eu não posso contar. Envolvem pessoas que eu amo, especialmente a minha mãe.
Fernanda: Então você escolheu o seu caminho. Melhor você ir embora.
Mateus: O que?
Fernanda: Isso mesmo. Por favor, saia.
Mateus pega Fernanda pelo braço e diz:
Mateus: Você não é louca de fazer isso comigo.
Fernanda: Mateus, me solta, você está machucando meu braço.
Mateus: O que eu estou fazendo também vai resultar em coisas boas para você. Tenha paciência!
Fernanda: Mateus, meu braço! Para ou eu grito e o pessoal do andar inteiro vai escutar e virá ver o que está acontecendo.
Mateus solta o braço de Fernanda e vai embora chorando de raiva, enquanto Fernanda respira aliviada por ter ficado sozinha:
Fernanda: No que o Mateus está se transformando, meu deus?

Em outro ponto da cidade de Curitiba Manoel e Bárbara viviam um casamento infeliz.
Casados a mais de vinte anos há muito eles não tinham um entrosamento digno de um casal apaixonado.
Manoel, que sempre foi um jovem mimado e mal educado com o passar dos tempos foi notando a vida fútil que conservou ao lado de Bárbara. Bárbara passou de esposa para um fardo. Apesar de tudo ela nunca cogitou dar o divórcio ao marido. Nos últimos anos Manoel passou a chegar mais tarde do que o normal em casa:
Bárbara: Boa noite, Manoel. Chegou cedo para o café da manhã do dia seguinte.
Manoel: Cedo mesmo, tentei adiar ao máximo minha vinda pra casa para não te ver, Bárbara, mas pelo jeito falhei.
Bárbara: Falhou sim, assim como tem falhado há anos tentando manter essa família em pé.
Manoel: Bom, você tem a opção de me dar o divórcio.
Bárbara: E te dar o gostinho de me ver pelas costas? Por favor, Manoel, eu não nasci ontem.
Manoel: Claro, o meu nome e posição social lhe agradam. Bárbara, você não ganha um puto no bolso com seu escritório furado de arquitetura, você sabe que depende de mim.
Bárbara: Você é bem ingrato. Depois de mais de 20 anos nos dedicando a esta casa e a nossa família você não reconhece nada mesmo!
Manoel: Esta casa é mantida pela ajuda de diaristas e a nossa filha se tivesse crescido sem mãe teria sido melhor pra ela!
Bárbara: Quer saber, eu vou me deitar, pois não sou obrigada a ouvir desaforos de você quando está bêbado.
Manoel: Vai, foge da sua vida e da sua realidade.

Ellen aparece vinda da cozinha.
Manoel: Minha, filha, não vi que você estava aí.
Ellen: Faz tempo que vocês não percebem nada, inclusive o quão ridículo é tudo isso. Mas, não tem como não perceber vocês. A vizinhança deve perceber também.
Manoel: Desculpa, Ellen. É que a sua mãe...
Ellen: Pai, um relacionamento é feito pelos dois e não só por um. Olha, apesar de tudo, isso é um problema de vocês. Eu vou me deitar. Boa noite.
Manoel: Boa noite.

Manoel se deitou no sofá e ali mesmo pernoitou acordando quase dez horas da manhã no dia seguinte. Para sua sorte era sábado e ele não precisava trabalhar. Verificou que Bárbara e a filha do casal, Ellen, não estavam em casa. 
Manoel: Sem a Bárbara eu vou ter um pouco de sossego. Deixa eu ver se já veio e-mail do meu contador... Caramba! Que caixa de spams cheia. Meu TOC doeu agora!
Quando foi verificar sua caixa de spams constatou que havia um e-mail recebido mais de três semanas atrás de uma pessoa desconhecida, com a seguinte mensagem:
“Olá, Sr. Manoel. Me chamo Joana e procurei por muito tempo o senhor, mas não consegui o encontrar antes. Preciso falar urgentemente sobre a sua filha falecida após o parto. Segue o endereço do asilo onde moro. Peço que venha o mais rápido que puder, pois não sei quanto tempo de vida ainda tenho.”

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