Capítulo
VIII
O
Melhor Amigo Da Noiva
(Made Of Honor – 2008 – Dir.: Paul Weiland)
Tenho, e tive, que ficar
feliz pela minha amiga, isso é o certo. Ela está com um cara incrível, que eu
gostaria de estar. Esse “namoro” vem acontecendo já há alguns dias, logo que
ele acordou, mas ela não teve coragem de me contar. Mas devia, assim eu teria
cortado o mal pela raiz antes, não teria alimentado esperanças com Robert, que agora
já estava na casa de Vera. Talvez para ocupar minha mente, resolvi que iria
procurar minha mãe e ver o que ele queria comigo. Não entrei, apenas bati na porta.
E ao me ver ela se abraçou e começou a chorar. Meu pai havia morrido á alguns
dias, e fez ela prometer não me avisar. Eu não pude acreditar que ela cumpriu
mesmo a promessa! Por mais que não conseguisse perdoar meu pai pelo que fez
comigo eu ainda tinha o direito de ao menos me despedir dele. Mas até isso me
foi tirado pelo preconceito de minha família. Mamãe disse que se mudaria para
outro estado e iria morar com uma irmã dela. A casa já estava vendida e ela
partiria em poucos dias. Me procurou apenas para avisar, e se despedir. Então,
foi o que fiz: me despedi e voltei para casa. Ela me deu a vida e me amou
enquanto eu fazia as coisas de acordo com o que eles determinaram. Quando
resolvi fazer algo por mim, tudo acabou. Eles me expulsaram da vida deles, e eu
aprendi a viver assim. Eles não eram mais minha família, apenas meus pais. Não
havia mais o que ser feito.
Agora
estamos na véspera do casamento de Donnie e Joane. Todo mundo está animado e
ocupado demais para se preocupar com os outros, mas era inevitável para mim
passar na casa de Vera e ver como Robert estava. Descobri que Trevor andou
incomodando eles, mas agora as coisas estavam calmas. Parece que Liliam ameaçou
ir á policia e contar a verdade. Isso é bom, mas ao mesmo tempo, perigoso.
Mesmo contra as ordens médicas, Robert decidiu que iria acompanhar Lia no
casamento. Vera estava fazendo um esforço enorme para ir, mesmo sofrendo os
efeitos da quimioterapia. Gerson estava sóbrio, pelo que fiquei sabendo, e
disse que não apareceria naquela “farsa de casamento”...
Eu ainda
estava de férias então tive tempo de me preparar com toda a calma do mundo. E
tive muito tempo para pensar sobre o que estava acontecendo. Porque eu, que
sempre fui centrado, de repente perdi o rumo por causa de um sonho besta? Foi
então que lembrei da tia de Lia. Eu tinha a tarde inteira livre, então liguei
pra Lia e peguei o endereço de sua tia.
Dona
Neusa me atendeu com simpatia e uma malandragem que logo de cara se percebe que
é tia de Lia. Nos sentamos e contei á ela os fatos dos últimos dias, omitindo
apenas meu interesse em Robert, levando em conta que ele agora namora a
sobrinha dela.
- Ok, meu querido. Lia estava certa. Sonhos como este
são encontros no plano astral. Tem sonhos que são meras lembranças do nosso
subconsciente, mas esses que você teve mostram que foi mesmo um encontro, e
provavelmente terão outros. Ele não sabe quem é você e você não sabe quem é
ele, o que não ajuda em nada, á não ser o fato de que está te fazendo abrir os
olhos para a vida. Se ele não viesse e te desse o recado de estar te
procurando, você continuaria enclausurado em seu quarto. Quantas coisas
aconteceram e quantas pessoas você conheceu desde que teve o sonho? – finalizou
ela.
- Muitas, com certeza, bem mais do que se não tivesse tido
o sonho. Não costumava interagir com meus colegas, apenas com Lia. – respondi.
Ela
pegou minhas mãos, mas não para “ler”, apenas para sentir. Fechou os olhos e
notei que seu semblante mudou, e sua voz ficou um pouco mais séria do que
antes. Ela falou:
- Você tem que parar de sair apenas com a intenção de
encontrar esse cara. Tens que sair por você mesmo, para se divertir e deixar as
coisas fluírem. Antes de encontrar o cara certo, vais encontrar o cara errado,
e vai sofrer, mas será necessário. Há muita dor no seu caminho. Perdas de
algumas coisas e pessoas, mas ganho em experiências. O homem que você sonha
está mais perto do que você imagina, em relação á distância, mas em relação ao
tempo, ainda está muito longe. Perdoe quem deve ser perdoado, livre-se de mágoas,
e confie mais na sua capacidade de conquistar alguém. Tenha amor próprio!
Depois
de agradecer a conversa fui pra casa terminar de me arrumar e pensando muito no
que havia me dito Dona Neusa. “O cara errado” seria Robert? Donnie? Mais essa
agora. Além de ficar focado no encontro do homem ideal, tenho que me preocupar
com o encontro com o homem errado. O que estava acontecendo? Mas seguindo a
orientação de Dona Neusa, sai de casa para o casamento sem me preocupar com
isso. Queria me divertir no casamento, mesmo sabendo que ver Donnie casando e
Robert aos beijos com Lia, me fariam ficar um pouco triste. Mas haveria mais
gente. Isso é que importava. Bati na casa de Tom com Dexter na coleira.
- Nossa! O que é isso que você está vestindo? –
perguntou ele debochando do meu terno.
- Roupas! – respondi – Devia tentar usar umas ás vezes
ao invés de só andar semi-nu pelo prédio. Cuida do Dexter?
- Adianta dizer não? Porque simplesmente não fizemos uma
porta unindo meu apartamento ao seu, ficaria melhor para o Dexter – disse ainda
mais debochado.
- Não, obrigado. Não quero correr o risco de entrar em
casa e ver uma mulher nua andando pela minha sala. Fica com Deus! – respondi
rindo, e já descendo.
- O que faço se teu macho aparecer aqui de novo? –
perguntou irônico.
- Foda com ele! – gritei.
Cheguei na igreja e encontrei Fred do Telefone, junto de
Lia e Robert, no lado de fora. Gina e Steve estavam mais acima, nas escadas. Senti
um clima rolando entre eles, e lembrei que Steve é casado, mas que nunca se
importou com isso, e lembrei também de André. Que Deus o mantenha longe!
“Perdoe quem tem que ser perdoado!”, ouvi a voz de Dona Neusa na minha mente.
No dia seguinte eu iria procurar André também. Chega de adiar decisões.
Procurei a minha mãe e resolvi tudo na hora, não da maneira que eu esperava,
mas resolvi. Agora era a vez de André. Acendi um cigarro e logo Fred e Lia me
imitaram. Lia não fumava muito, só quando estava nervosa.
- Não acredito que Joane vai casar! Uma a menos no mundo
das solteiras. – disse Lia.
- Ela vai casar, não morrer, Lia. – respondi meio seco.
- Nossa, estou vendo que o encontro com minha tia não
foi como o esperado. Depois quero saber tudo, ok?
- Não, é que fiquei sabendo hoje que meu pai morreu á
uns dias e não quis que eu comparecesse no enterro. Não é lindo da parte dele
me poupar disso? – respondi.
- Nossa amigo, eu sinto muito! Quer conversar á
respeito? – disse Lia vindo me abraçar.
- Não, está tudo bem, agora vamos entrar que está tudo
pronto e vamos nos atrasar mais do que a noiva. – desconversei e comecei a
subir as escadas.
O
pessoal do escritório estava mais ou menos juntos nos bancos da frente. Donnie
já estava no altar, muito nervoso. Sentei ao lado de Vera que estava se
sentindo enjoada, e preocupada. Antes de sair, seu pai, Trevor havia ido em sua
casa novamente incomodar sua mãe. Ao ficar sabendo da fuga de Tiago ficou mais possesso
e quebrou algumas coisas, vociferando que Liliam era responsável pela ruína da
vida dele. Que ele nunca imaginou que casar com ela fosse ser o maior erro de
sua vida. Vera, com todas as suas poucas forças conseguiu fazer ele sair e
ameaçou chamar a polícia de novo. Mas parece que essa ameça não assusta mais
ele. Agora Vera está preocupada por deixar a mãe sozinha.
Joane
chegou, tradicionalmente, atrasada, mas deslumbrante num dos vestidos de noiva
mais lindos que já vi. Vi lágrimas nos olhos de Donnie e de Joane. Até eu
estava chorando. Donnie casando, Robert abraçado em Lia na minha frente. Não
tinha como não chorar. Minhas opções estavam indo embora. Meu coração apertou,
não sei por que, mas apertou. A cerimônia estava linda, choros de emoção, votos
de amor eterno e tudo mais. Donnie até cantou uma música linda para Joane. E
pra finalizar, o padre perguntou se alguém sabia de algo que impedisse aquele
casamento se apresentasse agora ou se calasse para sempre. Todo mundo se virou
para porta quando ouviu Gerson chegando e gritando:
- EU SEI!
* Próxima semana muitas mudanças e tensão marcam os próximos capítulos de Encontros. Quarta, ás 22h40min


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