

Bárbara:
O que? Que brincadeira é esta?
Ellen:
Não tem brincadeira nenhuma! A única que brinca com assunto sério aqui é você,
dona Bárbara!
Bárbara:
Você e essa garota estão...
Ellen:
Sim, nós somos namoradas há mais de um ano. (Ellen pega Priscila pela mão na
frente dos pais)
Bárbara:
Mas, que pouca vergonha! O que você pensa que está fazendo, Ellen?
Manoel:
Ela está sendo quem ela sempre foi. Bárbara, você é tão péssima mãe que nunca
percebeu que sua filha gosta de meninas?
Bárbara:
Eu criei minha filha muito bem!
Ellen:
Como assim, pai, você já sabia?
Manoel:
Filha, eu sempre soube. Desde aquela vez em que você ficou um mês inteiro
chorando por que a sua amiga Larissa foi embora de Curitiba com a família para
o exterior eu já sabia que o que você sentia por meninas era diferente de
amizade.
Bárbara:
Sempre soube e nunca me contou? E você, sua sapatãozinha (apontando para
Priscila)? Gostou, né? Terminou de desviar a minha filha.
Priscila:
Olha aqui, dona Bárbara, eu não fiz nada! A sua filha é o que é com ou sem a
minha pessoa na vida dela. E agora eu entendo mais ainda o porquê de ela nunca
querer ter contado isso antes. Para ter um lixo de mãe que nem você até eu não
iria querer.
Bárbara:
Lixo, eu? Olha pra você, tua mãe não deve ter te dado o mínimo de educação, sua
suburbana. Tem cara de quem deixa de almoçar pra jantar. Aliás, deve ter sonhado
o mês inteiro com esse jantar, né? Comida de verdade pra você que deve comer
vina no lugar de carne.
Tiago:
Priscila, vamos embora daqui. Eu te levo pra casa.
Bárbara:
Isso, vão mesmo! A lésbica e o pardo! Olha só, minha filha ama uma inclusão!
Manoel:
Bárbara, sai da nossa frente.
Ellen:
Você é horrível, mãe! Eu odeio ser sua filha.
Manoel:
Eu levo vocês em casa. É o mínimo que eu posso fazer.
Priscila:
Por favor, senhor Manoel, não. Eu vou sozinha com o Tiago.
Priscila se despede de
Ellen e sai da casa da amada junto com Tiago. Na rua ela, chorando, lamenta com
o amigo.
Priscila:
Por que as coisas tem que ser tão difíceis? Por que a mãe da Ellen tem que ser
este monstro?
Tiago:
Ela já tinha alertado isso. Essa mulher é a materialização de tudo de ruim que
possamos ter hoje em dia. Mas, veja pelo lado bom, o pai dela pelo jeito vai
apoiar vocês. Já é um ótimo começo.
Priscila:
É, pensando por este lado, pode ser mesmo.
Enquanto isso o barraco
continua na casa da Ellen.
Bárbara:
Você sabia disso e nunca comentou comigo, Manoel? Eu sabia que você era um
péssimo marido, mas péssimo pai é novidade.
Manoel:
Justamente por conhecer o poço de preconceito que você é foi que eu preferi
deixar a Ellen decidir quando revelar isso pra gente. E pelo jeito eu fiz bem.
Ellen:
Obrigada, pai. E quanto a você, mãe, esquece que tem uma filha por enquanto. O
que você fez comigo, com a Pri e com o Ti hoje foi inadmissível!
Bárbara:
Vai se tratar garota doente!
Manoel:
Ellen, vamos sair pra jantar. Eu não consigo tocar nesta comida com as coisas
que a sua mãe falou. Depois eu te trago pra casa, mas eu vou dormir num hotel
esta noite!
Ellen:
Claro, pai. Vamos embora daqui.
Bárbara fica sozinha em
casa e grita de nervoso, sozinha em seu banheiro. Enquanto isso Priscila e
Tiago chegam em suas respectivas casas.
Priscila:
Boa noite, Mãe e Vitor.
Iná:
Eita, menina. Que voz é essa? Você está chorando?
Priscila:
Nada não, mãe. Eu vou pro meu quarto.
Iná:
Vitor, vai lá ver o que aconteceu com a sua irmã.
Vitor sai da sala e bate na
porta do quarto de Priscila que autoriza sua entrada.
Vitor:
O que aconteceu, Priscila?
Priscila:
O jantar foi horrível! A mãe da Ellen é pior do que eu pensava. Ela me
destratou, destratou a Ellen, foi preconceituosa com o Tiago. Olha, não sei se
quero ver esta mulher novamente na minha frente.
Vitor:
Poxa, Pri. Eu fico mal por você.
Priscila:
Pior é que eu não comi. Queria ter comido, a comida parecia estar tão boa.
Vitor:
Pois é, mas a digestão seria péssima! Vamos lá na cozinha que a mãe está
terminando de fazer a janta.
Enquanto isso, na casa de
Tiago...
Vera:
Você está me dizendo que além de tudo o que aconteceu com a Ellen e a Priscila
essa tal de Bárbara ainda te ofendeu? Mas isso não vai ficar assim!
Tiago:
Mãe, eu não quero ver você envolvida nesta história.
Vera:
Tarde demais, já estou envolvida. Amanhã mesmo eu vou lá.
Tiago:
Mas, amanhã é domingo! Você tem que descansar.
Vera:
Justamente por ser domingo vai ser melhor, pois não vou precisar fechar o
restaurante.
Tatiana:
Tem certeza, mãe? Se indispor assim?
Vera:
Tatiana, eu aguento muita coisa na minha vida, mas se mexerem com você, o Tiago
ou o Mateus a conversa muda de tom. Eu vou lá, sim!
Na cozinha de Iná o assunto
principal da noite continuava.
Iná:
Pelo jeito o jantar na casa da Ellen não foi muito bom.
Priscila:
Foi horrível, mãe! A mãe da Ellen insultou o Tiago por causa da cor do menino e
por ele ser bolsista. Quando ficou sabendo que eu e a Ellen éramos namoradas
foi pior ainda, aí que o jantar não vingou.
Iná:
Ela te destratou?
Priscila:
Muito, me chamou de sapatona, suburbana, me acusou de ter desviado a filha
dela.
Iná:
Ela fez isso? Quem ela pensa que é pra destratar filha minha? Eu vou dar na cara
dessa vadia de grife.
Priscila:
Mãe, por favor, não se mete na história. Só vai piorar.
Iná:
Me passa o endereço que eu vou lá amanhã.
Priscila:
Mãe, por favor...
Iná:
Priscila, eu já decidi eu quero o endereço dessa vaca!
Priscila:
Mas, mãe...
Iná:
Se você não me passar eu vou até a universidade e falo diretamente com a Ellen
e ela vai ter que me passar.
Priscila:
Não, isso não, a Ellen também ficou traumatizada. Toma, aqui está o endereço
(Priscila escreve no papel e entrega à Iná).
Antes de Vera sair de casa
no dia seguinte, Terezinha abordou a comadre.
Terezinha:
Você tem certeza de que vai na casa da mãe da amiga do Tiago?
Vera:
E você tem dúvidas? Não é porque o pai dos meus filhos morreu e eu não tenho
marido que eles não tem quem os proteja. Ninguém mexe com a minha cria!
Terezinha:
Não sei, minha comadre. Essa mulher pelo jeito tem grana, deve ter contatos. Me
lembrou o caso da morte do Marcos.
Vera:
Estou decidida!
Terezinha:
Ai, minha irmã, cuidado! Estas pessoas são perigosas!
Vera:
Perigosa sou eu! E ninguém vai me segurar não!
Determinada, Iná e Vera
acordaram cedo no domingo e vão em direção à casa de Bárbara. Vera chega
primeiro e toca a campainha.
Vera:
Bom dia, gostaria de falar com a Ellen. Aqui é a Vera, mãe do Tiago.
Ellen:
Oi, Vera? Sou eu mesma. Vou liberar o portão pra você entrar.
Vera entra na casa e Ellen
a recepciona.
Ellen:
Oi, Vera. Desculpa estar assim, mas é que no domingo eu acordo mais tarde e como
meu pai me deixou tarde aqui em casa eu ainda estava dormindo.
Vera:
Cadê a sua mãe?
Ellen:
A minha mãe?
Vera:
Sim. Eu quero que ela faça comigo o que ela fez com o meu filho ontem! Eu vou
mostrar pra ela como uma suburbana se comporta quando mexem com seus filhos.
Bárbara desce as escadas
ouvindo a conversa.
Bárbara:
Ellen, quem está aí? São 9 da manhã! Se for Testemunha de Jeová diz que todos
nós já nos conformamos com o inferno.
Vera:
A senhora deve ser a dona Bárbara.
Bárbara:
Sim, sou eu e quem é vo...
Antes de terminar a frase
Vera desfere um tapa na cara de Bárbara.
Vera:
Eu sou a mãe do “moreninho” que você humilhou ontem!
Ellen começa a ficar
desesperada, pois não tem Manoel em casa para apartar uma possível briga.
Enquanto Ellen corria
desesperada pro celular telefonar para o pai outra vez o interfone tocava.
Ellen:
Oi, quem seria?
Iná:
É a mãe da Priscila.
Ellen:
Dona Iná?
Iná:
Sim. Eu vim conversar com a sua mãe.
Ellen:
Bom... ela está ocupada.
Iná:
Eu espero. Não tem problemas.
Ellen:
Mas é que...
Iná:
Você vai me deixar entrar ou não?
Ellen libera a entrada de
Iná.
Enquanto isso Vera e
Bárbara continuam.
Bárbara:
Você me bateu dentro da minha casa? Eu vou te colocar na cadeia sua macaca
selvagem!
Vera:
Pode me colocar onde você quiser, mas antes eu vou colocar mais ainda minha mão na sua cara e te mostrar o que uma
moreninha e suburbana é capaz de fazer pelos filhos.
E nisso Vera desfere outro
tapa na cara de Bárbara que desta vez revida e também dá um tapa em Vera e ali
mesmo no chão da sala as duas começam a brigar.
Ellen:
Meu Deus do céu! Isso não pode estar acontecendo!
Neste momento Iná entrava
pela porta e ouvia uma série de desculpas de Ellen, mas o que realmente chamava
a atenção era a briga que acontecia na sala ao lado.
Ellen:
Olha, dona Iná, eu nem sei por onde começar. Queria te pedir desculpas e...
Iná:
O que está acontecendo na sala ao lado?
Ellen:
Então. Assim como a senhora...
Iná:
Espera, eu conheço esta voz!
Sem acreditar no que estava
vendo, Iná fala em alto e bom som.
Iná:
Bárbara?!
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