DESTINO - Capítulo 14: Preconceito






No fim de semana Manoel foi visitar Vera e levou uma caixa de bombons para sua mais nova amiga.
Vera: Manoel, posso te pedir um favor?
Manoel: Claro, Vera.
Vera: Olha, eu sei que estamos ficando próximos e eu realmente tenho gostado da sua presença. Porém, me incomoda esta história de você ainda ser casado e morar na mesma casa que a sua esposa. Apesar de ser cristã, eu não sou conservadora e entendo o lado das pessoas, mas quero que você entenda que eu não me sinto confortável com esta situação.
Manoel: Eu não tiro a sua razão. Prometo que resolverei isto o mais rápido possível. Estou com um problema maior atualmente. Assim que eu avançar nele eu te conto, por enquanto não quero despejar mais problemas meus em você.
Vera: Tudo bem, eu entendo. Bom, agora preciso fechar o restaurante e costurar uma camisa para o meu filho que vai sair hoje.
Manoel: Tudo bem, eu preciso correr atrás de algumas coisas pro jantar de aniversário da minha filha também.
Vera: Então até semana que vem.
Manoel tenta se despedir com um selinho, mas Vera se esquiva, dá um beijo no rosto dele. Manoel vai embora e Vera timidamente dá um sorriso, não deixando esconder a sua satisfação com os minutos passados ao lado de Manoel.

Manoel chega em casa e Bárbara está de saída.
Manoel: Você vai sair agora? Nós temos que ver as coisas pro jantar.
Bárbara: Já resolvi 80% de tudo, você apenas precisa comprar alguns ingredientes que estão na lista que eu deixei com a Ellen e entregar à equipe que virá fazer o jantar.
Manoel: Tá bom, né.
Bárbara: Tchau. Volto antes das 18h.

Bárbara pega seu Renault Duster e vai em direção ao Shopping Pátio Batel, onde já estava Mateus, esperando pela loira.
Mateus: 5 minutos atrasada.
Bárbara: E você vai parir um filho por causa disso? Deixa de "mimimi" e entra no carro.
Mateus: Para onde vamos?
Bárbara: Novo Mundo. Conhece?
Mateus: Sim. Mas, por que lá?
Bárbara: Tem uma pessoa que vai nos ajudar. Mas, mudando de assunto, você conseguiu deixar sua mulher e sair em pleno sábado?
Mateus: A Lívia está viajando, está em Buenos Aires e só deve voltar no começo do mês que vem.
Bárbara: Gente rica é outro nível. Se pensar bem a minha sogrinha fez um bem para essa menina em livrá-la da família classe média do Manoel ou da espanadora de pó.
Mateus: Mas, você pertence aquela família, então...
Bárbara: A gente trabalha com o que tem, Mateus. Mas mesmo sua mulherzinha sendo rica eu não a quero na minha família. O Manoel não pode me abandonar depois de todos estes anos e voltar pra empregadinha e pra filhinha deles. Deixe as coisas do jeito que estão. Aliás, eu suspeito que o Manoel esteja me traindo com ela, hoje mesmo chegou só no meio da tarde em casa.
Mateus: Você é bem insegura, né?
Bárbara: Sou precavida, Mateus. Aliás, você não se incomoda de eu falar assim da sua esposa?
Mateus: Pode falar. Eu não gosto dela.
Bárbara: Não gosta e se casou com ela? Olha, parabéns pela coragem. Eu apesar de tudo, gosto do Manoel, mas se ele acha que vai me descartar assim, vou fazer da vida dele um inferno. E você se casou só pra dar o golpe do baú?
Mateus: Bárbara, cala a boca e dirige, eu não sou seu amigo e estou aqui por negócios. Fecha a matraca.
Bárbara: Tudo bem, garotão. Já parei.
Bárbara e Mateus ficam em silencio dentro do carro até o destino final, a casa de Vânia. Quando chegam no condomínio Mateus exclama.
Mateus: É aqui? Que lugar mais popular!
Bárbara: Sim, mas você já vai entender.
Vânia é interfonada e libera a entrada deles. Ao chegarem no apartamento são recebido com uma ironia de Vânia.
Vânia: Nossa, Bárbara. Trouxe um garotão. Agora sim a conversa vai ficar interessante.
Bárbara: Não seja indelicada, Vânia. Deixa esse seu diálogo de piranha semianalfabeta para outras pessoas.
Mateus: Vamos ao que interessa? O que essa mulher vai ajudar a gente.
Bárbara: Bom, deixa-me fazer as apresentações. Vânia este é o Mateus, marido da Lívia, filha do Manoel com a Iná. Mateus, esta é a Vânia, ela sabe de toda a história, foi aliada da minha sogra convencendo a Iná a não procurar o Manoel quando descobriu que estava grávida e ela que me disse que a Lívia tinha sido adotada pelo Eugênio e a Helena, antigos donos do hospital.
Mateus: Tudo bem, mas eu quero saber como ela vai nos ajudar agora a Lívia não chegar até os pais dela?
Vânia: Você tem este interesse que nem a Bárbara? Por que?
Bárbara: Ele deu golpe do baú na menina e agora quer ter ela só pra ele, pra manipular melhor. Eu entendo ele e faria o mesmo.
Mateus: Não se trata só de dinheiro, mas enfim. Como a Vânia vai nos ajudar?
Bárbara: Vânia, tenho uma notícia pra você. Você vai ser mãe!
Vânia: O que?
Bárbara: Sim. Aliás, você nem vai precisar criar ela já vem crescida e com nome: Lívia.




Mateus: Pera aí, você vai fazer ela se passar pela mãe biológica da Lívia? E quando a Lívia exigir exame de DNA?
Bárbara: Meu querido, eu durmo na mesma casa que o pai dela, você acha que eu não vou conseguir um fio de cabelo? E claro, você, como um bom aliado vai trocar o fio de cabelo da Vânia pelo fio de cabelo do Manoel.
Vânia: Você nem sabe se eu vou aceitar isso.
Bárbara: Mas é claro que vai. Primeiro porque você está envolvida até o pescoço nesta história. Segundo porque eu e o Mateus vamos te pagar 50 mil reais para você levar esta história a diante.
Mateus: Você está retardada? Eu não tenho da onde tirar esse dinheiro!
Bárbara: Tem sim. Ou é isso ou o espanador ambulante e o Manoel vão chegar até a bastardinha. É isso que você quer?
Mateus e Vânia se olham, pensam bem na proposta de Bárbara e dão suas respostas.
Mateus: Ok. Eu aceito. Eu dou metade do valor pra Vânia se ela topar.
Vânia: Se é assim, então negócio fechado.
Bárbara: Bom, já que fechamos o grupo temos que começar a pensar como a Lívia vai chegar até a Vânia. Sim, pois ela não pode ir até a Lívia, visto que na cabeça de todo mundo a mãe biológica dela a abandonou e não quis saber dela.
Mateus: Isso é fácil eu posso dizer que achei uma entrada desta moça no hospital em arquivos do dia anterior. Digo que estavam colocados errados.
Bárbara: Isso não vai funcionar. Se até agora a ficha tava sumida, como que de uma hora pra outra ela aparece?
Vânia: Eu acho que dá sim pra eu chegar até ela. Eu digo que fiquei sabendo que ela ficou rica e que to precisando de dinheiro e que sempre soube que ela foi adotada por uma família rica. Ela vai querer fazer exame pra confirmar, vocês falsificam o exame, eu sou dada como mãe dela, mas como vou só estar interessada na grana dela, ela vai me rechaçar e nunca mais querer saber de mim. Sobre o pai dela eu invento que foi algum cara com quem tive uma transa só e nunca mais vi. Pronto.
Bárbara: Você anda vendo muita série americana? Digo isso porque você teve uma ideia boa até. Olha, não esperava isso de você.
Vânia: O teu problema é que você se julga superior aos outros, mas tá sempre quebrando a cara. E eu não me refiro ao Botox vagabundo que tu usa.
Bárbara: Você nem sabe o que é botox, leu isso numa revistinha da avon e tá aí usando ela fora de contexto.
Mateus: Parem de discutir. Achei a ideia boa. Mas, como nos livraremos do Manoel e da Iná?
Bárbara: Pegue todos os casais que tiveram filho no mesmo dia em que a Lívia nasceu, deem as fichas para os dois e eles que se virem. Nenhum vai dar positivo mesmo.
Mateus: É. Talvez o trabalho seja tão grande que uma hora eles podem desistir.
Bárbara: Ou então, melhor. Você cria uma outra ficha, pega um casal aleatório cuja a criança e os pais já morreram e entrega pra eles. Eles vão acabar achando que a filha deles já está morta e pronto.
Mateus: Posso fazer isso sim. Aliás, nem vamos precisar de exame de DNA, se houver uma maneira de colocar a Vânia na vida da Lívia parecendo que foi por ironia do destino e depois a Vânia desaparecer por conta dela mesma seria até melhor.
Bárbara: Perfeito! Prefiro evitar ter que lidar com exame de DNA. Muito trabalho e ainda correria o risco de não conseguir subornar alguém na clínica.
Mateus: Sim, bem menos arriscado. E eu não preciso inventar uma família falsa, só uma mãe falsa.
Vânia: Me parece bom.
Mateus: Bom, estamos combinados?
Bárbara: Estamos. Vânia, fique atenta ao seu pré-pago, pois em breve a gente marca de você aparecer na vida da Lívia.
Vânia: Então está certo.

Bárbara e Mateus saem da casa de Vânia e antes de Bárbara deixar Mateus no mesmo lugar onde o pegou ele fala.
Mateus: Me deixa aqui que eu vou descer e pegar um taxi. Não quero correr o risco de ser visto com você perto de casa.
Bárbara: Tudo bem, mas pegue um Uber, acho mais discreto.
Mateus olha pra Bárbara, dá uma risadinha de leve e fala pra loira.
Mateus: Sabe qual é o seu problema, Bárbara e o de gente bem de vida e egocêntrica que nem você? É que você acha que é muito inteligente, quando na verdade é burra que nem uma porta! Passar bem!
Bárbara fica irritada e não entende nada do que Mateus quis dizer, mas continua seu caminho em direção a sua casa, onde mais tarde aconteceria o jantar de aniversário de sua filha Ellen.

Ellen está arrumando alguns detalhes da sala de jantar ao lado de uma das moças contratadas para fazer o jantar quando sua campainha toca.
Ellen: Deixa que eu atendo.
Era Priscila e Tiago que chegaram juntos na casa da amiga. Ellen os recepciona com muita alegria e apresenta os amigos à Bárbara e Manoel.
Ellen: Mãe. Pai. Estes são Priscila e Tiago. O Tiago estudou comigo no ensino médio e a Priscila nós conhecemos na faculdade.
Manoel: Olá, Priscila e Tiago, sejam muito bem vindos. Sintam-se em casa.
Bárbara: Espera aí, eu conheço você de algum lugar, rapaz. Já veio aqui antes?
Tiago: Não que eu me lembre.
Ellen: Mãe, este é o Tiago, ele fez ensino médio comigo e também está estudando na PUC.
Bárbara: Claro, agora me lembrei. Você trabalhava Numa copiadora lá mesmo perto da PUC, não é?
Tiago: Sim, trabalhei por um tempo até conseguir estágio.
Bárbara: Mas olha só, que legal. É bolsista, né?
Ellen: Mãe, para de ser inconveniente.
Tiago: Não tem problemas. Sim, sou bolsista integral. Por que?
Bárbara: Por nada, não. É que você tem o perfil.
Ellen: Mãe, chega!
Bárbara: O que foi, Ellen? Estou tendo uma conversa civilizada com o seu amigo. E qual é o problema dele ser bolsista? Tem que aproveitar mesmo essas mordomias que o governo dá, ele é esperto e você deveria ser mais.
Tiago: Me perdoe, dona Bárbara, mas não tem mordomia nenhuma, eu fiz o ENEM, tirei um score alto e durante todo o meu ensino médio tive que ter médias acima dos meus colegas para não perder a bolsa. Então, não tem nada de mordomia nisso tudo.
Manoel: Tiago, me perdoe, a Bárbara não tem noção das coisas. Bárbara, vamos lá pra dentro ver como está o jantar. Com licença, jovens, sintam-se a vontade.

Em casa, Vera se preocupava com Tiago.
Vera: Será que seu irmão está bem lá na casa da Ellen?
Tatiana: Deve estar comendo melhor do que a gente.
Vera: Até parece que tu não gosta da torta de palmito da sua tia.
Tatiana: Na verdade eu gosto sim.
Vera: O dia que tu não tiver essa torta tu vai pagar uma grana pra comer uma dessas!
Vera e Tatiana dão risada.

Ellen fica muito envergonhada com o comportamento da mãe.
Ellen: Tiago, por favor, me perdoe, não vai embora.
Tiago: Tudo bem, você sempre disse que sua mãe é difícil.
Priscila: Tá vendo porque a Ellen tem medo de assumir nosso namoro pra família? A mãe dela é a encarnação dos preconceitos do século XXI.
Ellen: Mas hoje isso acaba. E se ela fizer ‘auê’ eu saio desta casa!

Iná sentia a ausência de Priscila em casa.
Iná: Vitor, cadê a sua irmã?
Vitor: Esqueceu que hoje era aniversário da amiga dela, a Ellen?
Iná: Amiga...
Vitor: A, mãe...você sabe.
Iná: Tudo bem. Eu já fui mais reticente com isso, mas enfim, ela é minha filha e eu continuo amando ela, mesmo ainda estando me acostumando com essa realidade dela.
Vitor: Mãe, mais importante do que não ter preconceito é crescer tendo e se despir deles como a senhora faz.
Iná: Hum, falando difícil. Parece seu pai quando a gente começou a namorar.
Iná abraça Vitor.

O Jantar é servido e nem bem começa Bárbara inicia sua inconveniência.
Bárbara: É você o namoradinho da Ellen, Tiago?
Tiago: O que?
Bárbara: Não precisa ficar receoso, eu não mordo. Eu percebi que ela está muito diferente nos últimos meses e eu conheço a minha filha.
Ellen: Mãe, para de falar asneiras.
Manoel: Bárbara, você não conhece a nossa filha mesmo. (resmunga)
Priscila: Gente, que delícia esse bobó de camarão. Parabéns à cozinheira. (tentando mudar de assunto)
Tiago: Não, eu não sou namorado dela, mas se fosse eu seria um homem de sorte.
Ellen: Bom, gente, reuni vocês aqui para anunciar algo...
Bárbara: Mas eu acho que você é sim, ela já falou várias vezes de você, sempre comenta que vai sair com você e a Priscila, acho que sim.
Ellen: Mãe, para.
Bárbara: Assim, nenhum problema você com ela, só quero saber se você é mais um desses interesseiros que gostam de dar golpe em filha de boa família ou não.
Ellen: Para, Bárbara!
Bárbara: O que foi, filha? Você namora um moreninho e tem vergonha!?
Ellen: Ele não é o meu namorado! A minha namoraDA é a Priscila!

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